Como eram as relações do Brasil com o Irã até agora. E o que mudou com Bolsonaro

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O assassinato do general Qasem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irã, tem impacto sobre a estratégia diplomática de diversos países – inclusive a do Brasil. Pela primeira vez, o governo Bolsonaro revelou publicamente a sua aversão ao regime iraniano ao dar sinais de apoio ao ataque ordenado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Essa posição do atual governo brasileiro marca uma forte mudança diplomática em relação ao Irã.

Em geral, o Brasil tem um histórico de pouca proximidade com governos iranianos, mas não de hostilidade. A exceção a essa linha da diplomacia nacional havia sido o período entre 2003 e 2010, com Lula na Presidência. Mas, ao contrário de agora, o petista tinha afinidade com Mahmoud Ahmadinejad, então presidente iraniano. Durante seu governo, as relações entre Brasil e Irã se estreitaram.

 Histórico das relações entre Brasil e Irã
Durante a presidência de Lula (2003-2010), Brasil intensificou relações com Irã de forma inédita. Na imagem, o petista com o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad.| Foto: AFP

O Irã se tornou uma república islâmica em 1979, depois da revolução que derrubou o xá Reza Pahlevi, último monarca da nação. Pouco antes, na década de 1960, as relações diplomáticas entre Brasil e Irã começaram a nascer, depois de um histórico quase nulo de contato entre autoridades dos dois países.

Em 1961, o Brasil instituiu uma embaixada em Teerã e, no ano seguinte, os países assinaram um acordo cultural para intercâmbio acadêmico e artístico, de acordo com José Luiz Silva Preiss, professor de história e relações internacionais da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG), em seu artigo As Relações Brasil-Irã: dos antecedentes aos desdobramentos no século XXI.

Encontros oficiais de autoridades dos dois países eram raros antes dos anos 2000. A primeira visita diplomática se deu ainda durante a monarquia iraniana, quando o xá Reza Pahlevi veio ao Brasil em 1965, em visitas ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Dez anos depois, em 1975, Pahlevi e o governo brasileiro assinaram um acordo de cooperação econômica e técnica. No ano seguinte, o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, fez uma visita ao Irã.


Apesar de se declarar neutro na guerra Irã-Iraque, Brasil vendeu armas aos iraquianos
Logo depois da Revolução Islâmica, o Irã entrou em conflito militar com o vizinho Iraque, entre 1980 e 1988. Durante esse período, o Iraque era o principal comprador da indústria bélica do Brasil.

Segundo o professor Andrew Traumann, autor do artigo No meio do fogo cruzado: a participação do Brasil no conflito Irã-Iraque, a venda de armas, automóveis e alimentos fez as exportações do Brasil ao Iraque chegarem próximas ao patamar de US$ 1 bilhão anuais durante a década de 1980. Tais compras são, aliás, a origem de uma dívida do governo iraquiano com o Brasil que perdura até hoje e foi renegociada em 2018, com aprovação do Senado brasileiro.

O Brasil, por sua vez, era um grande comprador de petróleo do Iraque durante a mesma década. Além disso, segundo Preiss, especialistas brasileiros contribuíram com seu expertise para impulsionar o programa nuclear de Saddam Hussein, então presidente do Iraque.

Ainda assim, o Brasil declarava-se neutro na guerra do país com o Irã e, embora em menor medida, também mantinha relações comerciais e técnicas com os iranianos. A Embraer vendia aviões para o Irã e, de acordo com Preiss, tanto pilotos iraquianos quanto iranianos receberam treinamento no Brasil.



Com Lula, relação com Irã se intensificou de forma inédita
Durante o governo do ex-presidente Fernando Collor, em 1991, o então ministro das Relações Exteriores, Francisco Rezek, fez uma visita ao Irã. A visita foi retribuída em 1993, já sob a Presidência de Itamar Franco, com a vinda do chanceler iraniano Ali Akbar Velayati ao Brasil. Entre essas duas visitas, em 1992, os países assinaram um memorando de entendimento em agricultura, e o Brasil começou a exportar alimentos para o Irã, que enfrentava uma crise pós-guerra.

Mas foi durante a década de 2000, durante o governo Lula, que as relações do Brasil com o Irã se intensificaram de uma forma relevante – especialmente no segundo mandato, quando tanto o chanceler do Brasil como o próprio presidente visitaram o Irã, algo inédito nas relações entre os dois países.


Já no começo do mandato de Lula, entre 2003 e 2005, as exportações brasileiras ao Irã cresceram 47%. Comparando 2002, último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, com 2010, último ano do governo Lula, houve um aumento de 134% nas exportações do Brasil ao Irã.

Lula causou polêmica em âmbito internacional por ter uma relação próxima com o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, um notório violador de direitos humanos. Em 2007, defendeu as ambições nucleares do iraniano e disse que “enriquecer urânio e tratar da questão nuclear de forma pacífica” era “um direito do Irã”.

Em 2008, Celso Amorim, então ministro das Relações Exteriores, fez uma visita ao Irã, retribuída em 2009, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irã, Manouchehr Mottaki, veio ao Brasil.

Nos dois últimos anos de seu governo, Lula perdeu qualquer pudor de mostrar ao mundo sua relação com Mahmoud Ahmadinejad. O líder iraniano veio ao Brasil em 2009, e o ex-presidente brasileiro foi ao Irã em 2010, com uma comitiva de mais de 300 autoridades e empresários de diversos setores.

Há evidências de que, durante esse período, o grupo terrorista Hezbollah, parceiro do Irã, teria intensificado suas ações no Brasil e na América do Sul, especialmente em países com governos de esquerda como Venezuela e Bolívia, levantando recursos com atividades criminosas como o narcotráfico. Soleimani tinha relação estreita com o Hezbollah e é acusado de envolvimento no atentado de 1994 à AMIA, uma associação judaica de Buenos Aires, em que 85 pessoas morreram.


Durante o governo Dilma, Ahmadinejad voltou ao Brasil, desta vez para participar da Conferência Rio+20, realizada em 2012. Em 2013, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, foi ao Irã para a posse do presidente Hassan Rouhani e, em 2015, o seu sucessor no cargo, o chanceler Mauro Vieira, também fez uma visita ao país.

Em 2018, no governo Temer, os dois países assinaram diversos atos bilaterais, durante a visita ao Brasil do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irã, Mohammad Javad Zarif.

Como está a relação desde que Bolsonaro assumiu a Presidência
Do ponto de vista comercial, o fortalecimento da parceria com o Irã iniciado na era PT não sofreu alterações significativas nem durante o governo Temer, tampouco no primeiro ano de Jair Bolsonaro na Presidência. O Brasil vende principalmente produtos agrícolas para os iranianos, como milho e soja.

Na geopolítica, por causa de sua proximidade com o governo dos EUA, Bolsonaro tende a se mostrar hostil em relação ao governo iraniano. As declarações do governo brasileiro posteriores ao ataque americano que mataram o general Soleimani deixaram isso patente.

Bolsonaro disse que “a posição do Brasil é se aliar a qualquer país do mundo no combate ao terrorismo” ao ser questionado sobre o tema. O Itamaraty seguiu a mesma linha, declarando “apoio à luta contra o flagelo do terrorismo” e afirmando que “essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional”.


Logo no começo do governo Bolsonaro, em fevereiro de 2019, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, participou em Varsóvia, na Polônia, de uma conferência sobre paz no Oriente Médio organizada pelo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo.

A conferência tinha um viés claramente anti-iraniano. Além de representantes norte-americanos, estavam presentes autoridades de países rivais do governo iraniano no Oriente Médio como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Israel.

O Brasil vai sediar uma nova edição desse evento em fevereiro. Quando foi agendado, em setembro do ano passado – meses antes do ataque a Soleimani –, durante uma reunião de Araújo com Mike Pompeo em Washington, o evento não parecia ter grande relevância geopolítica. Agora, ganha um novo significado.

Apesar do alinhamento com os EUA e da pressão dos americanos sobre o Brasil, o governo Bolsonaro ainda não decidiu declarar o Hezbollah, grupo aliado do Irã, como uma organização terrorista. No ano passado, quando o atentado na associação judaica AMIA, de Buenos Aires, completou 25 anos, o então presidente argentino, Mauricio Macri, colocou o Hezbollah na lista de organizações consideradas terroristas."

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