Saiba como surgiu o culto à Iemanjá e por que o bairro do Rio Vermelho foi escolhido para celebrar a festa

[Saiba como surgiu o culto à Iemanjá e por que o bairro do Rio Vermelho foi escolhido para celebrar a festa]

Conhecido por ser um dos bairros mais boêmios da capital baiana, no dia 2 de fevereiro o Rio Vermelho ganha um destaque ainda mais especial, repleto de flores, cheiro de alfazema e devotos de toda parte do mundo, que se reúnem em frente à colônia dos pescadores, para saudar a rainha das águas.


O culto à Yemanjá é muito mais antigo do que as tradições soteropolitanas. Segundo o professor e historiador Ricardo Carvalho, a prática teve início na Nigéria, com o povo Egba. “Por conta da diáspora africana e do processo criminoso do tráfico de escravos, houve um espalhamento da população nigeriana em várias regiões das Américas. Temos referências do culto à Yemanjá no Caribe, Barbados, Cuba, Bahamas, se espalhando por toda a América Central e chegando até o sul do Brasil”, explica o historiador.
“É um culto belíssimo, associado não só às águas, mas aos peixes, à abundância dos mares e fertilidade. Ela é considerada a protetora das crianças, dos velhos e pescadores”, conta.
A historiadora Fernanda Reis lembra da lenda contada por Pierre Verger, no livro “Orixás”, sobre a origem do culto à Yemanjá: “Ela é filha de Olokun [deus ou deusa do mar]. Ela foi casada pela primeira vez com Orunmilá [senhor das adivinhações] e depois com Olofin [rei de Ifé], com quem teve três filhos. Dois deles são os orixás Xangô e Oxumarê. Entretanto, cansada da vida que levava em Ifé, Yemanjá resolveu fugir, mas seu marido colocou um exército à sua procura. Porém, o pai de Yemanjá lhe deu, em uma garrafa, um líquido que, em caso de extremo perigo, ela poderia quebrar no chão. Se sentindo coagida, Yemanjá quebrou a garrafa e o líquido formou um rio que a levou para o oceano, residência de seu pai. Dessa forma, Yemanjá se tornou a rainha do mar”, descreve.
A escolha do bairro
Em Salvador, as origens da festa remontam ao final do século XIX e início do século XX. Inicialmente, o culto à Yemanjá acontecia no Dique do Tororó, mas veio para o bairro do Rio Vermelho com a chegada dos pescadores ao local.
Segundo Fernanda Reis, a praia do Rio Vermelho era considerada um local distante do centro da cidade, frequentada pela elite baiana.
“A festa de Nossa Senhora Santana acontecia no bairro do Rio Vermelho, desde 1823. No último dia de festa, em 2 de fevereiro, havia a prática de entregar presentes em alto mar para a Mãe d'água. Em 1924, os pescadores prometeram à Yemanjá que, se a pescaria melhorasse, iam sempre entregar-lhe presentes. A partir da década de 30, houve a ascensão da devoção à Yemanjá e a decadência da festa de Nossa Senhora Santana. Somente no final dos anos 50, o presente passou a ser denominado ‘Festa de Yemanjá’”, relata.
Sincretismo
Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Conceição ou Nossa Senhora dos Navegantes? Quem seria a representação católica de Yemanjá para o sincretismo religioso? 
De acordo com o professor Ricardo Carvalho, não há nenhuma associação entre a divindade africana e os santos católicos. “O sincretismo foi um ato de resistência, mas hoje em dia não há mais necessidade dessa associação. Por isso que o processo do sincretismo é tão questionado, e com razão, pelo movimento religioso de matriz africana”, observa. “Mas acabaram vinculando a imagem de Yemanjá com Nossa Senhora dos Navegantes, na Bahia. Já em Pernambuco, ela é comparada à Nossa Senhora da Conceição”, pontua.
Sagrado e profano
De acordo com Ricardo Carvalho, já houve momentos em que a festa era mais carnavalesca do que agora.
“Isso é bastante cíclico. Não há uma tendência de progressivamente sobre a festa ganhar um sentido mais profano, que não seria a palavra ideal, já que ela está carregada de preconceito. Já houve festas na Bahia, a Lavagem do Bonfim, por exemplo, que já foi mais violenta, na época dos trios elétricos. Hoje, quase não tem violência. É normal que as festas populares da Bahia comecem com um vínculo religioso e depois o povo cai no samba. É uma comemoração, um louvor à vida. Não vejo problema nisso. É uma celebração da baianidade e vejo isso com muito bons olhos”, avalia o historiador.

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